Introdução: A urbanização acelerada introduziu a poluição sonora de origem antropogênica nos grandes centros urbanos, sobrepondo-se às frequências biológicas e reduzindo o “espaço ativo” de comunicação da fauna nativa, canal vital para a sobrevivência e reprodução. A sensibilidade ao ruído ambiente não é uniforme, variando conforme a anatomia do aparelho fonador de cada grupo taxonômico. Aves urbanas apresentam acentuada plasticidade fenotípica ao ajustarem seus cantos para frequências mais agudas ou ampliarem a intensidade vocal mediante o Efeito Lombard. Por outro lado, anfíbios anuros enfrentam rígidas limitações morfológicas para alterar o tom grave de suas vocalizações, sofrendo o mascaramento direto provocado pelo espectro do tráfego veicular. Diante disso, a hipótese formulada assume que a poluição sonora atua de maneira assimétrica, impactando mais severamente os anfíbios anuros do que as aves passeriformes. O estudo justifica-se pela necessidade urgente de compreender os limites da resiliência ecológica da fauna silvestre e fornecer subsídios científicos ao planejamento urbano sustentável. Objetivos: Analisar os impactos da poluição sonora na comunicação animal urbana. Especificamente, buscou-se quantificar os níveis de pressão sonora em dB(A), registrar e analisar os parâmetros bioacústicos das vocalizações, avaliar a vulnerabilidade assimétrica entre os táxons e propor diretrizes de conservação, como a delimitação de “zonas de silêncio” em parques públicos. Materiais e Método: Estudo de caso empírico de abordagem quanti-qualitativa conduzido em três áreas de amostragem com diferentes níveis de ruído: Praça Miguel Couto (área central de tráfego intenso em Curitiba, PR), Campus Centro Politécnico da UFPR (área intermediária) e o município de Nova Londrina (zona de controle). A poluição sonora foi quantificada por decibelímetro digital calibrado operando em dB(A) nos períodos matutino e vespertino/noturno. As vocalizações da fauna foram capturadas por Amostragem por Ponto de Escuta e processadas no software SInES Tools: dB Analyzer para geração de sonogramas e avaliação de frequências, amplitudes e alterações comportamentais. Resultados: A área central registrou nível sonoro equivalente ($L_{eq}$) médio de 78,5 dB(A), a UFPR apresentou níveis intermediários (47,5 a 52,5 dB(A)) e Nova Londrina, PR manteve-se em 50,2 dB(A). Sob níveis de ruído superiores a 60 dB(A), 80% das aves deslocaram suas frequências fundamentais para valores acima de 3 kHz ou aplicaram o Efeito Lombard, silenciando apenas sob picos extremados acima de 85 dB(A). Em contrapartida, as frequências de canto dos anuros (1,0 a 3,5 kHz) foram totalmente sobrepostas pelas emissões graves do trânsito (0,5 a 2,0 kHz), resultando na ausência completa de atividade de canto nas zonas de tráfego intenso. Considerações Finais: A hipótese do trabalho foi confirmada: a poluição sonora urbana opera como uma barreira ecológica assimétrica que afeta desproporcionalmente os anuros devido às suas restrições morfológicas, enquanto as aves contornam o mascaramento por meio da plasticidade vocal. Recomenda-se a implantação de barreiras acústicas vegetais nas bordas de parques e a criação de “zonas de silêncio” regulamentadas para a salvaguarda da biodiversidade urbana.
Palavras-chave: Poluição sonora urbana; Mascaramento acústico; Bioacústica; Aves; Anfíbios anuros.
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