Introdução: Nos últimos anos, tem sido observado um aumento dos casos de deficiências nutricionais em cães, frequentemente associados a dietas inadequadas, doenças, dificuldades na absorção de nutrientes e situações de vulnerabilidade. Estima-se que aproximadamente 20 milhões de cães vivam em situação de rua no Brasil, condição que agrava esse cenário devido à alimentação irregular e de baixo valor nutricional. Além disso, a seletividade alimentar da espécie pode dificultar a aceitação de suplementos e novos alimentos. Paralelamente, grandes quantidades de vegetais e legumes são descartadas por não atenderem aos padrões estéticos de comercialização, contribuindo para o desperdício de alimentos e a emissão de gases de efeito estufa. Objetivos: Diante desse contexto, o presente estudo teve como objetivo desenvolver e avaliar um petisco funcional para cães, elaborado com acompanhamento de uma médica-veterinária, visando complementar a alimentação, suprir possíveis carências nutricionais, apresentar boa aceitabilidade e promover o aproveitamento de ingredientes de baixo custo. Materiais e Método: A formulação utilizou brócolis, cenoura, batata-doce, iogurte natural, chá concentrado de alecrim, farinha de alecrim, vinagre de álcool e farinha de aveia, originando cinco protótipos com diferentes métodos de preparo e porções padronizadas de 20 g. O desenvolvimento envolveu revisão bibliográfica, seleção e validação dos ingredientes com profissional da área, parceria com o CEASA e mercados locais para obtenção de legumes, elaboração dos cinco protótipos e realização de testes. Foram realizados testes de vida de prateleira (Shelf Life) em diferentes condições de armazenamento, que comprovaram a capacidade do alecrim e do vinagre de álcool, utilizados em conjunto, como conservantes. Os protótipos também foram submetidos a análises microbiológicas e físico-químicas.
Resultados: Os resultados microbiológicos demonstraram que os Protótipos 4 e 5 atenderam aos padrões estabelecidos pela Resolução RDC nº 724/2022 e pela Instrução Normativa nº 161/2022 da ANVISA, indicando condições microbiológicas adequadas para utilização do produto. As amostras apresentaram ausência de Salmonella spp. e crescimento zero dos demais microrganismos avaliados. Nos testes de durabilidade, as formulações com conservantes naturais apresentaram maior estabilidade, enquanto as amostras sem conservantes apresentaram deterioração mais rápida. Como complemento, foi produzida uma embalagem biodegradável à base de amido extraído da casca de batata-doce, incorporada com sementes de espécies nativas, que apresentou decomposição e germinação em menos de uma semana. Também foram estabelecidas parcerias com organizações não governamentais para doação dos petiscos a cães em situação de vulnerabilidade.
Considerações Finais: Os objetivos do estudo foram alcançados em grande parte. Os resultados demonstraram a viabilidade da formulação, a qualidade microbiológica das amostras avaliadas e a presença de proteínas, minerais e carboidratos. As dificuldades de conservação e padronização foram abordadas por meio da elaboração de novos protótipos, de ajustes no processamento e do uso de conservantes naturais. Ainda são necessários estudos complementares para avaliar integralmente a composição nutricional e confirmar a adequação do petisco como complemento alimentar. O projeto também contribui para as dimensões ambiental, social e econômica da sustentabilidade ao aproveitar alimentos que seriam descartados, reduzir resíduos e propor uma alternativa de baixo custo para a alimentação de cães em situação de vulnerabilidade.
Palavras-chave: Sustentabilidade; Economia circular; Nutrição animal.
Votação encerrada.