Introdução: O planejamento urbano define normas para a construção e o uso das moradias, mas nem sempre considera como as famílias transformam esses espaços ao longo do tempo. Nas periferias, ampliações e mudanças de fachada podem ser julgadas como irregularidades sem que as necessidades dos moradores sejam investigadas. Este estudo analisa essa tensão a partir da Rua Novo Habitat, em Diadema (SP), e de um conflito territorial envolvendo um empreendimento imobiliário em Porto Seguro (BA) Objetivos: Analisar as transformações das moradias na Rua Novo Habitat após sua padronização; discutir os limites de um planejamento que considera prioritariamente a forma prevista no projeto; e examinar como diferentes usos do território são apresentados e julgados no debate urbano. Materiais e Método: Realizou-se uma pesquisa qualitativa e exploratória, baseada em revisão bibliográfica, análise da legislação urbanística de Diadema e comparação de imagens históricas da Rua Novo Habitat disponíveis no Google Street View, referentes a 2010, 2019 e 2025. A interpretação foi orientada pelos conceitos de espaço banal, de Milton Santos, e de habitar, de Henri Lefebvre, além da discussão de Raquel Rolnik sobre a relação entre moradia e interesses financeiros. Como contraponto documental, analisou-se reportagem da Agência Pública, publicada em 2024, sobre a disputa entre um empreendimento imobiliário e uma proposta de conservação ambiental em Porto Seguro. Resultados: A sequência de imagens registra a passagem de construções precárias para fachadas padronizadas e, posteriormente, para moradias com ampliações, novos pavimentos e alterações nas entradas. O principal achado é que a configuração planejada não permaneceu estática: os moradores continuaram transformando o espaço construído. As imagens não permitem identificar os motivos individuais das reformas nem avaliar sua conformidade técnica. A comparação com Porto Seguro evidencia que interesses distintos disputam as decisões sobre o uso do território, embora os casos pertençam a contextos jurídicos diferentes e não comprovam a aplicação desigual de uma mesma norma. Considerações Finais: Os resultados mostram que avaliar as reformas periféricas apenas pela aparência ou pela correspondência com o projeto original produz um diagnóstico incompleto da moradia. O estudo contribui para um urbanismo de escuta, no qual a análise técnica das construções seja acompanhada da investigação das necessidades dos moradores e de sua participação nas decisões sobre o território.
Palavras-chave: Planejamento urbano; Desigualdade socioespacial; Moradia.
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